29 de agosto de 2017

Kung Fu (série)

Ao se pensar em kung fu, a primeira coisa que vem à mente é alguma cena de filme de luta, na qual o protagonista faz movimentos surreais para derrubar seus oponentes. Depois alguma sequência de movimentos de treino, e se houver tempo para isso no filme, alguma cena de meditação. Hoje em dia as pessoas consideram tudo mera ficção e mesmo a arte marcial em si como pouco eficiente.

Uma arte marcial não pratica somente luta, para começo de conversa. Como arte, a técnica se adapta ao praticante e este se transforma através do treino constante. A prática extravasa da academia e passa a fazer parte do cotidiano. Não só os movimentos mudam, a forma de pensar também. Não é um mero exercício físico, como alguns pensam: é para o ser como um todo, para a vida toda.

Talvez sem essa introdução fique mais difícil entender a proposta da série estrelada por David Carradine (é, o cara do Kill Bill) na década de 1970. As cenas de luta da série ficam relegadas a partes esparsas, nas quais o protagonista não possui outra saída - principalmente na primeira temporada. Além de que a coreografia dos combates é mais "realista" do que as pessoas acostumaram após Matrix - os movimentos são mais objetivos, tornando a luta mais bruta.

O grande destaque da série são as lembranças em um templo shaolin, com seus ensinamentos ricos e profundos. Para a sociedade micro-ondas de hoje em dia, tentar refletir sobre esse tipo de assunto é complicado, sobretudo quando se quer apenas ver cenas de luta e pancadaria gratuita. Caine, personagem interpretado por Carradine, é um garoto que entra para a ordem após perder os pais e a avó. Por ironia do destino, Caine mata o sobrinho do Imperador, após este ter matado seu querido mestre Po, o que acaba sendo obrigado a fugir para fora do país, indo parar nos Estados Unidos do Far West.

No meio da sociedade bangue-bangue, Caine destoa de toda a sociedade, mesmo de seus conterrâneos que ali viviam e trabalhavam. Ele realmente foi tratado como se trata um estranho, na miríade de reações que as pessoas podem ter. É interessante ver como as pessoas bugavam com suas observações, e como ele interagia com todos os meios sociais da época, apesar do preconceito. Ele era chinês, não usava armas de fogo, não portava uma arma, andava a pé, não usava sapatos, não comia carne nem bebia álcool. E não era um coitado qualquer como a maioria dos personagens dentro do padrão.

Dando rumo à trama, Caine começa a buscar seu meio-irmão, filho de seu pai. Enquanto a primeira temporada é mais reflexiva, a segunda é mais objetiva, perdendo um pouco a profundidade. Para finalizar, a terceira temporada mescla ação e reflexão, e mesmo alguns personagens marcantes reaparecem. Quem prestar atenção, perceberá que os cenários começam a se repetir - e mesmo os atores ficam menos diferenciáveis. O final é aberto e até meio bobo: não há mais motivos para fugir, o obstáculo será encarado de frente.

Essa série é muito especial, diferente do que está em moda hoje em dia - reflexo de um problema social de ordem evolutiva. Dá para dar umas boas risadas, não forçadas. Dá para chorar de emoção, ficar apreensivo, até ficar torcendo e mesmo elucubrando sobre os próximos episódios. É uma série muito bem trabalhada, muito bem feita - não no sentido de efeitos especiais, fotografia, etc. É uma série muito bem trabalhada nas mensagens que ela transmite.

22 de agosto de 2017

Kung Fu Panda 3 e o Reiki


Não poderia deixar de traçar paralelos e analogias entre o filme a prática do Reiki. É algo que gera mimimi, porque afasta o Reiki daquela visão mística que a maioria das pessoas tem e o aproxima do que ocorria na época de sua criação. O filme acaba por convidar os mestres de Reiki a uma reflexão mais profunda sobre a própria prática, e acaba por dar um novo rumo a quem trilha por este caminho. Nessas horas, é bom deixar um pouco de lado o que é e o que não é Reiki, afinal, além de isso ser visível (para não dizer óbvio), é um ensinamento muito simples e sutil.

A base do Reiki (Usui Reiki Ryoho) são os Cinco Princípios, algo que a maioria dos reikianos deixa de lado logo após o Nível I. Recitar os Cinco Princípios de manhã e à noite não é apenas um exercício mecânico: é algo a ser vivido a cada momento - só por hoje. É o começo para tornar-se uma pessoa melhor a cada dia. Não significa ser infalível, mas dar o melhor sempre, sem comparações a não ser consigo mesmo - a famosa autocrítica.

É essa evolução que permite uma maior e melhor canalização de energia. Não há macete secreto: só ficar aplicando pode dar uma boa resistência nos braços, mas não vai dar aquela virada evolutiva necessária. A chave estar em ser você mesmo, não um padrão ou uma modinha. Ser você mesmo é o que permite que as coisas fluam. O Reiki, de certa forma, é adaptado ao estilo de vida do reikiano, sem deixar de ser Reiki, assim como a pessoa começa a descobrir quem realmente é. A transformação (Okuden) não é se tornar outra pessoa, pelo contrário: é se descobrir.

Por isso há tantas vertentes de Reiki como linhagens de Kung Fu, grãos de areia na praia e estrelas no céu. Cada uma delas reflete a experiência pessoal de cada mestre. Não cabe aqui julgar qual é a melhor, muito menos a vigarice de determinadas pessoas (talvez a experiência de vida delas tenha sido ganhar dinheiro como algo primordial), mas o que cada uma pode acrescentar ao próprio universo pessoal. Querer buscar o primordial é válido como uma alternativa, mas considerá-lo o único verdadeiro é limitar, e mesmo estagnar a si mesmo, fechando-se para oportunidades inusitadas.

No final do filme, as pessoas aprendem a canalizar o ch'i, sendo elas pandas ou não, cada um da sua forma. Não são mestres sobrenaturais ou místicos, mas pessoas comuns que aprendem um novo recurso para terem uma vida cada vez melhor. Reiki é algo tão simples que até perde a graça ou mesmo gera algumas frustrações. Claro que isso é apenas uma analogia e uma reflexão e que cada coisa é uma coisa. No entanto, andar neste tipo de terreno pode ser uma experiência muito enriquecedora e gratificante, porque ela força a sair da zona de conforto apesar de parecer terreno conhecido.

15 de agosto de 2017

Não, nunca, jamais: reaprendendo a usá-las

Dizem que viralizou na internet (que termo doentio, com trocadilho e tudo o mais) uma discussão entre duas mulheres a respeito de uma delas não ter deixado o filho da outra brincar com uma action figure (existe um termo para isso que a reportagem esqueceu de pesquisar - e pelo visto nem a dona sabia). A briga gerou em torno do fato do objeto em questão ser um brinquedo, e por ser um brinquedo, a criança poderia brincar com ele.

A questão vai mais fundo: e se realmente fosse um brinquedo de brincar, a criança poderia pegá-lo, mesmo sem o consentimento da sua dona? Apenas o "não" não seria justificável? Independente do que seja, de brinquedos a panelas, o não, porque eu não quero é um argumento por si só, e deve ser levado em conta como qualquer outra justificativa. No caso, ao invés de a mãe trabalhar a frustração do filho e ensinar-lhe sobre respeito e aceitação, a mesma tomou as dores para brigar por algo vazio.


O não impõe limites, e isso não é uma coisa negativa. Da mesma forma que o não é não em relacionamentos (lembre das propagandas sobre estupro), também o é em outras situações. Hoje em dia é normal inventar desculpas complexas apenas para substituir o não quero, o não posso, pois os mesmos são considerados tão vazios quanto vou dar banho no meu peixe.

Chegaram ao ponto de dizer que a mente humana não reconhece a palavra não. Fica o questionamento: a mente humana não reconhece ou não quer reconhecer? O não faz parte da vida cotidiana, e mesmo esse post não faria sentido algum sem esta palavra - ela não precisaria existir no léxico. Quando explanam que o não deve ser substituído porque a mente não o entende, é apenas uma nova programação para não entender o não, e mesmo não aceitá-lo.

O pensamento positivo não está ligado a frases afirmativas - aliás, o pensamento positivo é forçar a mente a pensar coisas que ela não aceita. É mais fácil, e muito mais natural, aceitar o não como parte da vida do que ficar gastando tempo para reformular uma frase só para não dizer não - ou nunca, ou jamais. Por exemplo: na frase "eu não quero ser assim", a pessoa não deixa claro como ela quer ser, apenas o que ela não quer ser. Já é uma coisa, mas falta a outra, mas não se sabe se, no fundo, ela quer ser daquela forma, mas não consegue aceitar.

O mesmo raciocínio serve para as palavras nunca e jamais. Nunca diga nunca é contraditório por si só e se auto-anula. Para aquele momento, o eterno torna-se necessário. Por exemplo: eu nunca vou beber álcool, significa que algum dia eu vou beber? Não! Por mais que passe o tempo, as circunstâncias mudem e a pessoa comece a ingerir álcool, nunca continua significando nunca. Interessante notar que as pessoas não reconhecem o peso da palavra não, mas até temem o peso da palavra nunca.

Há alguns anos, disseram-me que no irlandês não existia a palavra não, pois sempre usavam uma afirmação para negar outra. Nunca pude confirmar o fato, além de ter minhas dúvidas: talvez não exista o não de outra forma, assim como saudade é traduzido como sentir falta em outras línguas. O não existe, e funciona: depende de como a própria mente está condicionada. Talvez para determinadas pessoas o não lhe seja um obstáculo para atingir objetivos, mas ao invés de adaptar-se e desenvolver o próprio potencial, acusam uma mera palavra.

8 de agosto de 2017

O Mundo de Sofia

Para mim, este livro talvez seja um parente distante do Matrix ou mesmo do Divergente, já que todos eles abordam o mesmo assunto de diversas formas: vive-se num mundo ilusório, e sair dele é parte da trama (objetivo ou não), além de toda uma reflexão a respeito. Enquanto que em Matrix sair do sistema é tomar as rédeas da própria vida e ter consciência das próprias escolhas, em Divergente não há uma noção clara do mundo em que se vive, até que outro mundo se descortina para além dos limites então conhecidos.

Já n'O Mundo de Sofia, é visto um pouco de cada aspecto: ao estudar filosofia, toma-se conhecimento de que vivem em uma ilusão, e sair da obra torna-se imperativo ante os "desmandos" do autor. Assim como Divergente, é um mundo dentro de outro mundo: Sofia nada mais é que uma personagem de um livro de filosofia que será dado de presente à filha de um militar em missão pela ONU. As realidades se cruzariam e interagiriam entre si: cartões postais ao longo da história que serão "entregues" no futuro tornam-se o exemplo mais emblemático.

A coluna vertebral da história é um curso de filosofia ministrado à protagonista, que aborda a questão da existência e da realidade. Um presente de 15 anos que ajudaria a entender o mundo em que vive e a se orientar dentro dele. A ênfase recai nos clássicos, que dão origem ao conceito de filosofia. Conforme o curso vai progredindo, Sofia começa a criar uma nova consciência sobre ela e sua realidade, o que permite descobrir seu propósito. A mera curiosidade em descobrir sobre os cartões postais a leva a ter noção de toda a situação. E o plano de sair do controle do major é consequência do conhecimento de si mesmo.

A diferença de consciência de Sofia para os outros personagens vai ficando mais latente ao longo da obra, até atingir seu ápice no final do livro, durante sua festa de 15 anos. As pessoas não aceitam que são personagens de uma história e o caos se instala na festa. O jardim é destruído e sair da história deixa de ser uma escolha para tornar-se uma necessidade. Desenvolver a consciência é um caminho sem volta. Por maior que seja a vontade de desistir, seguir em frente é questão de sobrevivência. O conhecimento leva a isso.

Por mais que o conhecimento seja de matéria mental e a evolução seja um processo além da mente, trabalhar a mesma é necessário. Tudo começa por ela. A mudança de pensamento abre caminho para uma mudança de consciência e consequentemente para uma mudança de atitude. É o que permite uma visão mais suave das coisas, ao invés de se ficar no útil/inútil que não leva a nada. No começo, busca-se beber de boas fontes, para depois descobrir que qualquer fonte é boa quando se sabe aproveitá-la.

E talvez seja nisso que o livro "peque". No final, o filósofo apresenta à Sofia a seção de Nova Era (New Age no livro) de uma livraria. Livros sobre espíritos, tarô, magia, entre outros assuntos afins. Essa cena vai de encontro com o início do curso, no qual é abordado que a primeira "missão" dos filósofos clássicos era combater a "superstição" de uma sociedade mergulhada em mitos. Caberia ao filósofo, através da razão, dispersar esse misticismo - ao invés de se aprender com ele? Ou seja, mesmos problemas, mesmas perguntas, mesmas formas de agir?

Parece até que é algo contraditório: o conhecimento como forma de conhecer o mundo e a si mesmo, mas determinadas coisas são mera superstição, mera experiência mal interpretada. Que vende, aliás. Retornando à coluna vertebral, vê-se que o autor do livro (não o personagem, o real mesmo) busca ligar os autores clássicos ao racionalismo do renascimento, e com isso à noção que se tem hoje em dia de ciência. Por isso essa visão alternativa é tratada com desprezo - e os casos "sobrenaturais" da história podem muito bem ser racionalizados.

Isso poderia ser visto como um exemplo de limitação a outras visões de mundo. No final do livro, Sofia e o filósofo ficam presos a uma realidade paralela do major e sua filha, tentando interferir no que é possível. É algo não possível de ser explicado com a filosofia racional apresentada ao longo do livro, mas aberto a todo tipo de reflexões e discussões. É um livro que pode ser interpretado de duas formas: como mera apostila de Filosofia, ou como um mundo de possibilidades para a própria vida.

1 de agosto de 2017

Os fatores e vetores de desenvolvimento do núcleo


A evolução pode ser positiva ou negativa, como apresentado em posts anteriores. No entanto, há duas coisas que apontam a direção evolutiva, sobretudo em aspectos específicos: os fatores e os vetores. Para tal, é necessário entender o que seria o núcleo, no qual aqueles agem diretamente.

Cada ser é um microcosmo, que ressoa com o macrocosmo (o Universo), infinito e complexo quanto este o é. Este microcosmo seria o núcleo de cada ser, algo tão pequeno, mas extremamente intenso e vasto. O Universo segue este padrão. Talvez o conceito de "pequeno" possa gerar estranhamento, já que é a maior coisa conhecida pelo ser humano, mas ficam as dúvidas e as conjecturas sobre outros Universos e mesmo dimensões.

O núcleo é cercado de situações e acontecimentos - os fatores. Estes se alinham conforme suas afinidades evolutivas em torno do núcleo, ou seja, cada "dificuldade", "problema", ou "situação" está ligado a um rumo evolutivo, por assim dizer. Esse rumo evolutivo seria o vetor, para onde os fatores convergem. Ao refletir sobre os "problemas da vida", a pessoa tem a oportunidade de perceber que o conjunto de fatores estão ligados a uma determinada lição, e perceber que um problema não é algo negativo em si.

O vetor pode estar apontado para fora, para dentro, ou mesmo tangenciar a circunferência do núcleo. Quanto maior esta circunferência, maior quantidade de fatores e vetores. Ao se aprender determinada lição, a circunferência aumenta de tamanho. Superando uma dos fatores do vetor, os outros são superados com mais facilidade - praticamente se dissolvem. Quando uma pessoa diz estar afogada em problemas, a maioria (para não dizer todos) dos fatores segue apenas um ou alguns vetores - ao aprender a lição necessária, os problemas "acabam".