27 junho 2017

Bom senso, senso comum, quem julga quem?

Já falei sobre a fragilidade do bom senso neste post. Indo além, o senso comum não é exatamente o que pensam muitas pessoas - como uma cidade ou mesmo um país inteiro - sendo no máximo um grupo pequeno (comparado ao todo) que acaba impondo sua opinião sobre os demais. O senso de justiça seria a opinião de uma pessoa sobre o que seria justo ou não pra ela, indo pelo mesmo caminho do bom senso e do senso comum.


Quando se julga algo, quando se dá uma opinião, é algo meramente subjetivo, por mais objetividade que a pessoa tente exprimir, ou seja, de nada valem se o outro assim o achar. Sério: sua opinião não vale nada, a menos que alguém diga que o vale - e valerá apenas para ela, e ninguém mais. A opinião de ninguém é melhor que de outrem. Reflita sobre os famosos formadores de opinião, ou mesmo aquelas pessoas que fazem "sucesso" nas redes sociais. Há pessoas que "vencem" argumentações simplesmente por rejeitar a opinião de outras pessoas.

É mais fácil seguir a opinião de outro do que pensar e formar a própria, que será apenas sua e de mais ninguém - e não será reconhecido por isso. Afinal, para que pensar se seu pensamento não será levado em conta, né? Claro que não é bem assim: formar sua opinião é ter uma visão temporária sobre algo. Sim, temporário, porque quando se está aberto, consciente, as coisas mudam de uma hora para outra, de um dia para outro. É normal que as pessoas estranhem: mas ontem você não pensava assim, por que mudou de opinião? Porque ontem é ontem. Ontem é Passado - apesar de alguns ainda o viverem.

A impressão que dá é de um enorme vazio de ideias: julgar alguém é apenas dar uma opinião sobre algo. Se a opinião vale algo, depende da situação em que ela se encontra: todos que vivem em sociedade são obrigados a seguir determinadas regras para que todos possam viver em ordem (as pessoas de hoje em dia não gostam dessa palavra, né?). Fora os meios formais, os julgamentos nada mais são que comparações e opiniões formuladas pelas pessoas de forma geral. Ou seja, é algo que gasta tempo que poderia ser utilizado para coisas mais importantes. A vida dos outros é dos outros, olha que coisa óbvia.

Tirando os julgamentos formais (esse sim necessários), os julgamentos de opinião são mero gasto de tempo. Cada pessoa possui sua certeza e sua razão, mesmo quando prefere adotar a de outrem. Se as pessoas são iguais, por que a opinião de uma vale mais do que de outra? Talvez mais importante do que julgar seria questionar, compreender, entender como o outro pensa: é mais uma forma de aprender, de crescer, evoluir.

20 junho 2017

A dificuldade da aceitação


Aceitar é diferente de conformar-se. Já falei sobre em outro post. E por ser algo complexo e profundo, aceitação e conformação acabam se confundindo. Para Hawkins, a Aceitação vem antes da Razão, e antes da Aceitação vêm a Neutralidade e a Disposição. É um caminho longo e árduo, mas muito gostoso, pois muita coisa é deixada pra trás, como aquela sensação que se tem após um barulho constante cessar.

Interessante notar que aceitação e razão são conceitos meio que temidos pelas pessoas. Teme-se aceitar e se conformar com tudo que está em volta, travando-se e deixando de evoluir. Teme-se a razão por pensar que se deixa de lado as emoções, tornando-se um ser frio e desprovido de amor ou compaixão. É bem por aí, mas não é bem isso. Aceitar tudo o que está em volta não é algo ruim, é algo bom e necessário, afinal não se pode mudar os outros. A razão é saber ponderar além da emoção, levando ela em conta, mas no devido lugar. É necessária a razão para se chegar ao Amor, que é logo depois. Que coisa, não?

No entanto, os níveis de consciência são entrelaçados. Trabalhar níveis elevados em níveis inferiores é mais comum do que se imagina, e esse escalonamento é mais um efeito didático do que prático. Ou seja, a Aceitação está presente mesmo quando a pessoa está em um nível de consciência abaixo da Coragem (que seria um nível neutro). Aprender a aceitar é uma forma de evoluir na qual as pessoas precisam aceitar. Aceitar para compreender - sem julgamentos. Aceitar põe o passado no lugar dele - no Passado - e abre o presente para ser vivido.

Jogar o passado pra trás é complicado pois fica um buraco a ser preenchido. E o que se pode ser preenchido? A pessoa é livre para escolher: pode ser qualquer coisa. Isso é tão incrível que dá até medo: o que eu vou por no lugar? Porque mesmo o vazio meditativo é alguma coisa. É mais fácil se apegar ao passado e jogar a culpa nos outros, do que pegar esse espaço todo e fazer o que se sempre quis e sonhou. É algo realmente além da compreensão da maioria das pessoas.

13 junho 2017

Divergente

Um livro realmente viciante e interessante. Fiquei de tal forma absorta por ele que não conseguia parar de ler. O interessante é que a história em si não é muito profunda, e o excesso de objetividade deixa a desejar em diversos pontos. Para um livro tão ruim ser tão bom, é porque o que importa é realmente bom. A ideia foi trabalhada a seu tempo, para agradar sua geração - para mim, ela foi mal aproveitada, mas deixa pra lá. Dizer que é uma versão mais atualizada de Matrix também seria exagerado, mas é uma boa analogia.

A trama gira em torno do domínio mental entre as pessoas das cinco facções existentes na sociedade: Abnegação, Audácia, Erudição, Franqueza e Amizade. São perfis sociais que trabalham em áreas específicas de forma a promover a paz e evitar a guerra. Entretanto, pessoas são pessoas, e algumas delas querem poder. Para tanto, irão se utilizar as sutilezas mentais para conseguir seu intento. Ao contrário de Harry Potter, onde as casas de Hogwarts formam perfis psicológicos positivos, que incentivam as pessoas a darem seu melhor, as facções de Divergente são como rotulações nas quais as pessoas se limitaram para não se destruírem.

Além das cinco facções, existem os sem-facção: os párias da sociedade. Por algum motivo, essas pessoas não pertencem a nenhuma facção (como o nome diz) e são excluídas socialmente. Vivem de empregos pequenos e da caridade, conduzida principalmente pela Abnegação. Também existem os Divergentes: pessoas cujos perfis extrapolam uma facção, demonstrando características além da média. São considerados perigosos, pois, ao contrário dos membros de facções serem facilmente manipuláveis em nome de seus grupos (inclusive com biotecnologia), estes não são controláveis, formando seus próprios juízos. Engraçado que dependendo da palavra a se utilizar, a imagem de um Divergente parece realmente perigosa.

Os Divergentes nada mais são que pessoas que transcendem a própria mente e os padrões sociais estabelecidos. São conscientes de suas ações e do todo, livres de qualquer tentativa de manipulação. Olhar por este ângulo torna o livro fascinante (e mesmo viciante). Enquanto os membros das facções vestem-se e pensam dentro de determinados padrões (não que sejam iguais, mas previsíveis), os Divergentes acabam por pegar elementos dos mais diversos grupos aos quais tendem. Não significa que tenham características de todas as facções, mas são abertos aos diversos grupos. Não é um padrão da moda (por isso o livro não colou tanto), a pessoa nasce e se desenvolve daquele jeito.

Outra sacada legal é o mecanismo da simulação. Através de substâncias injetáveis e programas de computador, a pessoa passa por simulações de situações como forma de autoconhecimento e superação. Como se entrassem em uma Matrix, mesmo vivendo em uma - um sistema dentro de outro sistema? Mesmo sendo algo simulado, as sensações são reais. E quando se passa por uma situação real, após ter vivido uma simulação da mesma? Talvez seja isso que diferencie: a consciência. É ela que permite as modificações das simulações - já que as pessoas comuns apenas a vivem como mais uma, enquanto os Divergentes a moldam ao seu bel-prazer. Lembra Neo modificando a Matrix: o sistema não é real, mas o que é real?

Talvez as pessoas não gostaram de Divergente porque ela trabalha de forma simples um conjunto de ideias que é considerado complexo ou mesmo restrito a um grupo de pessoas que se acham especiais. Algo abordado pelos clássicos da literatura e do cinema que não deveria ter sua versão teen. Também há a questão da qual as pessoas não gostam de ser questionadas se aquilo que vivem é realmente real, vivendo absortas em uma ilusão criada por elas mesmas, cheia de sofrimento e alegrias efêmeras.

06 junho 2017

A ignorância seria mesmo uma bênção?


A resposta é não, e ponto. Poderia acabar o post aqui, mas aí seria mais prático escrever no Facebook, além do quê a ideia é convidar à reflexão. Após uma situação estafante, onde se descobre tanta coisa amarga, esse mote acaba por resetar a informação recém-inserida na mente. Quem viu o primeiro filme da trilogia Matrix pode já ter imaginado como tudo seria após ingerir a pílula azul, ou mesmo se fosse possível reverter os efeitos da pílula vermelha (mesmo que a simples ingestão da pílula não cause grandes efeitos por si só). Um dos personagens tenta voltar à Matrix, e quase põe a perder toda a missão do Nabucodonosor, expondo a questão de que viver na Matrix seria realmente negativo.

Pode-se criar a partir disso três tipos de visão: a ignorância é uma bênção (o caminho de ida), viver imerso na realidade (o que é realidade?), aprenda a forma-esqueça a forma (o caminho de volta). Por mais que o terceiro tipo seja praticamente igual ao primeiro, a diferença é um fator fundamental, apesar de aparentar ser tão pequeno: a questão do sofrimento. Conhecer o sofrimento e aceitá-lo é outra forma de aprenda a forma, esqueça a forma: é ter consciência do que ocorre, mas isso não causar danos. Isso não se alcança apenas se isolando e aceitando "de fora": deve-se imergir no mundo e conhecer a realidade - e o sofrimento também.

Não adianta iluminar-se em um lugar tranquilo, se esta "iluminação" é quebrada na primeira buzina de carro. Essa é a primeira visão de que falei: a calma vem do desconhecimento (aquilo não existe, aquilo não me alcança). Infelizmente, as pessoas continuam a seguir este caminho achando que este é o certo. Ele é "certo" apenas no começo, mas não significa que ele é "necessário". Essa sensação é "ilusoriamente boa" (lembra do nível de consciência do Orgulho? Falsa sensação de bem-estar), e muitos negam-se a sair dela. Quando a vida bate à porta, negam-na ainda mais, como um círculo vicioso.

Matar um leão por dia é a expressão referente à rotina das pessoas de forma geral. Sofre-se, vive-se, conhece-se. O conhecimento, a verdade, a realidade, é preferível à ilusão e à mentira. Entretanto, continua-se a viver a ilusão do sofrimento. Alguém precisa fazer o trabalho sujo. É daqui que saem conceitos reais, sólidos das coisas. Mas ainda há cegueira: as pessoas ofendem-se por qualquer coisa, e acham que qualquer coisa pode ofender, atingir. Apesar de parecer um estágio inferior ao anterior, é o contrário: é mais fácil abrir os olhos ao que está além, abrir à mente e despertar.

A terceira visão é muito parecida com a primeira, pode-se usar as mesmas palavras, e a diferença é tão sutil que fazer uma diferenciação com palavras é muito delicado. Resumindo: aquilo tudo que as pessoas da primeira visão buscam encontram na terceira de forma profunda e efetiva. O sofrimento passa, mas não se sofre. Mesmo que alguém tenha a intenção de ofender, ferir, não há resistência. Sabe-se que a verdade é amarga, mas não rejeita o gosto, não se opina sobre. Não seria uma frieza emocional: as emoções estão lá, mas no papel delas, como uma criança que obedece aos pais e não o contrário.

Buscar saber, buscar sofrer com isso, é o que torna a pessoa forte. E faltam pessoas fortes no mundo. Não se deixar nivelar por baixo - porque uma pessoa não o quer, não significa que os outros não devam crescer. Ignorância ilude, voa-se sem aprender a voar: a queda é muito mais dolorosa, apesar do voo despreocupado e confortável. E é possível ter um voo despreocupado e confortável sabendo voar, dependendo apenas da própria capacidade de adaptar-se ao vento.