31 maio 2016

Salvação - além da religião


Boa parte das pessoas conhece o conceito cristão de Salvação - no qual a pessoa tem que ter boa conduta nesta vida para estar junto de Deus quando for embora. Poucos sabem que o conceito de Purgatório surgiu na Idade Média - o Inferno seria a casa de purgar, onde as almas seriam purificadas e assim adentrar ao Céu, e que por divergências documentais surgiu um lugar próprio chamado Purgatório. Mas o que quase ninguém sabe é que a Salvação vai além de um conceito cristão, e sobretudo de um conceito religioso, tornando-se um objetivo de vida.

Para entender isso, temos que começar com a seguinte premissa: o mundo é injusto aos nossos olhos. Nós tendemos a considerá-lo injusto, e para nós o é. Isso faz com que tentemos mudá-lo do nosso jeito, das mais diversas formas: seja atuação política, seja participação social, seja de outras formas... Existe o sonho de mudar o mundo e fazê-lo melhor - a utopia de uma sociedade ideal. Só que o que é certo para uns não é certo para outros. E aí surge o racha: nós e outros, eu e o Outro, o certo e o errado.

Busca-se um diálogo, mas o ego quer se impor - afinal, ele acha que sempre está certo (principalmente os menos evoluídos). Mesmo quando se evolui, e se começa a acertar e a ter razão, o ego abaixa a bola e busca não se impor - ele começa a aceitar que as pessoas têm opinião e que são livres para escolherem seus caminhos. Não é uma relativização do certo e do errado, estes conceitos são subjetivos pois se baseiam em nossos valores e no Bem e Mal absolutos (que existem dessa forma, disfarçando-se de diversas coisas).


Ao entender que cada pessoa tem sua visão de certo e errado e que poucos realmente conseguem se impor sobre muitos (Hawkins fala em seu livro que poucos evoluídos conseguem neutralizar massas involuídas), as coisas não serão do nosso jeito. Não dá para dar murro em ponta de faca - a frustração torna-se algo constante. A saída é aceitar que as coisas são assim, e que não vão mudar como desejamos, mas longe de ser pessimista, isso libera uma quantidade tremenda de energia para mudarmos nossas próprias vidas, para nos adaptarmos ao mundo.

É aí que está a salvação pessoal: você se dá o melhor ao mundo, independentemente do quanto ruim e injusto ele o seja. A ideia de uma decadência vem da nossa frustração de o mundo não ser o que realmente queremos, então ao invés de mudá-lo, nos mudamos. Nos adaptamos para ser pessoas melhores a cada dia que passa, por nós mesmos e por quem amamos. Salvar as pessoas, neste caso, seria ajudar as pessoas a crescerem, se desenvolverem, e darem um rumo melhor a suas vidas. Isso é amar: não espere nada em troca, tenha fé e confie em si. É isso que realmente pode fazer um mundo melhor.

17 maio 2016

Procrastinar no serviço: uma reflexão honesta

Já tratei sobre o assunto aqui uma vez. Decidi retornar porque, pesquisando na internet, vejo que as pessoas o tratam de forma hipócrita. É algo que existe, busca-se combater como se fosse uma doença; no entanto, duvido que seja algo realmente negativo. É fácil falar que temos que ser os mais produtivos possível, só que e quando não há nada pra fazer, eu vou procurar pelo em ovo para dizer que estou trabalhando?

O trabalho não é um fluxo constante, como também não somos. Ora estaremos bem dispostos, e poderá haver serviço ou não; ora estaremos cansados, fatigados, e poderá haver muito serviço ou não. Como agir a cada momento? Silêncio. Até entendo que temos que nos melhorar sempre no ambiente de trabalho, produzir sempre mais, e melhor (de preferência). O problema não está aí: se você jogar no Google, ou mesmo no YouTube, encontrará milhares (pra não dizer milhões) de técnicas de aumentar a produtividade no serviço, sites especializados, e receitas "mágicas" para aumentar seu desempenho (no trabalho).

E quando o problema é justamente não ter trabalho? Sistema caiu, acabou a luz, ou o acesso a algum site fica indisponível, e você precisa dele para trabalhar? A primeira alternativa é (sempre) dar um jeito: tentar fazer aquilo que está pendente e não precisa da internet, da luz, ou mesmo do site. Depois, limpar a caixa de correio, que "nunca" se tem tempo para organizar. Quando não se há mais nada para fazer, hora de jogar conversa fora. Será?

Jogar conversa fora, pelo menos para mim, traz uma sensação de tempo perdido que acaba me torturando. Não consigo ficar jogando conversa fora muito tempo, a menos que eu não esteja com cabeça para fazer outra coisa. A Lei proíbe a procrastinação no serviço público, mas e aí? Quem fiscaliza, ou deveria fiscalizar? Sinceramente, isso acaba virando argumento para derrubar o colega. A mesma coisa no serviço privado: não conheço uma pessoa que não procrastina em serviço, porém conheço diversos casos de pessoas que denunciam os colegas para derrubar uma possível promoção ou mesmo para "queimar a imagem".

Claro que as empresas têm diversos recursos preventivos: monitoramento de IP, bloqueio de sites, e mesmo a própria rádio-fofoca. No meio disso tudo, há pessoas honestas que sabem que uma distração de vez em quando é necessária, desde que se cumpram os prazos. Penso que ficamos tempo demais dentro de um ambiente fechado, fazendo coisas non sense, sem tempo para fazermos o que realmente gostamos ao sairmos no final do dia. Gastamos 1/3 do dia trabalhando e outro 1/3 dormindo. Sobra-se 1/3 para alimentação, higiene (tomar banho, escovar os dentes), arrumar a casa e resolver pepinos (e em São Paulo para ir e voltar do trabalho). No terço do trabalho, nem sempre estamos trabalhando - por que não aproveitá-lo de forma melhor, sem interferir no serviço?

Vou repetir: sem interferir no serviço. Estou falando sobre aquelas horas em que não há absolutamente nada para fazer - nem uma pendência, ou mesmo quando o sistema cai. Lembro do clássico jogo Paciência, sucesso das antigas versões do Windows. Até que os setores de Tecnologia da Informação resolveram tirar. Ver as novidades no Facebook? Ajuda a relaxar, mas é como uma droga: vicia e pode estragar sua vida (no caso, a profissional). YouTube é uma maravilha para ouvir música, só que sobrecarrega a internet da empresa. Já ouvi casos de pessoas que dormem no banheiro - afinal, não podem dizer que não era dor de barriga. Essas são as saídas básicas.

Estudar quando não se tem nada para fazer é uma boa, principalmente quando não se precisa imprimir nada. Agora as impressoras têm monitoramento de IP, então dá para rastrear qual usuário está imprimindo e mesmo o quanto imprimiu. Sinceramente, com tantos recursos nos celulares e tablets, não acho que seja necessário imprimir no serviço, fora que é um desperdício de recursos que a empresa pode não arcar. Leia o título do post novamente: uma reflexão honesta. Não é hackear o computador do serviço para fazer o que bem entende, mas aproveitar os recursos que ele tem nas horas em que não há absolutamente nada pra fazer.

Se você está achando um absurdo como uma pessoa pode pensar assim, sugiro que abra os olhos: acredito que todo mundo faça. Não adianta querer que o pessoal fique bitolado no serviço e fique inventando trabalho só para dizer que trabalha. Eu já trabalhei em empresa assim, e te digo que além de não funcionar, a produtividade cai vertiginosamente. Abra a cabeça, pare de dar serviço pro funcionário que está de boa só pra ver ele se movimentar. Você não sabe se daqui a uma ou duas horas vai aparecer um serviço tremendo que nem ele sabe se vai conseguir resolver no prazo. É nessas que o chefe perde o funcionário: este se embanana nas suas atribuições, e acaba por acumular serviço, fazendo tudo devagar, pra não ficarem jogando mais coisa pra ele e assim se ferrar. Instinto de autopreservação.

Ao contrário do telefone e da impressão que são gastos proporcionais e variáveis, a internet é paga em valor fixo. O único problema é o congestionamento de rede. Isso quase não é problema quando a internet da empresa é boa, mas já vi casos de empresas economizarem com internet e depois reclamarem que são os funcionários. Geralmente quando a TI corta o acesso ao Facebook, quem reclama são os altos postos, que acusam os subordinados de baixa produtividade. Internet de qualidade aumenta a produtividade do serviço, mas é inevitável que a mesma não seja usada para outros fins.

Reclamamos que os políticos não trabalham e que a população também não. Só que não somos honestos ao ponto de tocar na própria ferida nem temos empatia o suficiente para entender o trabalho alheio. Acho válido questionar e buscar entender, mas ficar dando palpite e julgando o outro pelo que não se conhece é dar um tiro no próprio pé. Transparência e honestidade devem andar juntas no ambiente de trabalho.

03 maio 2016

Síndrome de Horácio, ou do Braço Curto

Quem não se lembra do dinossauro fofinho da Turma da Mônica, verdinho e pequenininho? Talvez o traço mais marcante que seus grandes olhos eram seus braços curtos, que nada alcançavam. Essa metáfora é usada sobretudo nas artes marciais, quando uma pessoa não golpeia de forma efetiva com medo de atingir o outro. Você está em uma academia justamente para aprender aquela técnica, não precisa ter medo de atingir ou machucar alguém - por isso há a supervisão de um mestre ou professor.


Isso pode ser levado para a nossa vida pessoal: se queremos algo, temos que ir atrás, o golpe tem que surtir efeito. Quantas pessoas que se dizem cheias de problemas realmente se esforçam para resolvê-los? É possível perceber a diferença entre quem corre atrás ou quem é braço curto. Temos que ter compaixão por elas? Com certeza, são nossos irmãos que também estão aprendendo a viver. Mas sejamos realistas: as pessoas acabam por se acomodar nos próprios problemas. Dê a ela uma ideia e veja sua reação: para algumas, é a luz no fim do túnel, para outras, você está atrapalhando.

Deixando os outros de lado, pelo menos por enquanto - porque quando você se vê lá no fundo, consegue perceber como são as pessoas a sua volta - vamos refletir como a Síndrome de Horácio afeta nossas vidas. Quantas vezes deixamos de fazer as coisas porque não quisemos nos esforçar? Quantas vezes precisamos esticar os braços para alcançar nossos sonhos, mas simplesmente não o fazemos? A gente simplesmente se acomoda e se deixa levar pelas ondas... Não adianta só pedir, temos que correr atrás do que sonhamos, e isso cansa.

Para que mudar, crescer, evoluir, se tudo está na palma da mão? Sempre haverá uma pessoa que irá nos dar comida, abrigo, roupa... E pessoas que viverão disso, sem sair do lugar. Não, não precisamos parar de ter compaixão pelo nosso semelhante, apenas consciência disto: as pessoas escolhem se vão evoluir ou não. Não adianta ajudá-las se elas não se ajudarem ou não quiserem sair do lugar. Mudanças são incômodas, causam novos problemas. A cama é muito macia para a gente acordar cedo. E assim vemos a sociedade como está hoje em dia: muitos benefícios para poucos, e pouco incentivo para crescer.

Isso já explica boa parte dos problemas sociais de antemão. Percebe que analiso a sociedade de forma diferente da maioria, mudando o ângulo de visão. Apesar da minha formação em História, prefiro ver a sociedade através da pessoa do que o contrário. Afinal, uma coisa é analisar a sociedade como ela está, outra coisa e entender por que ela está assim.