12 janeiro 2016

Cultivando Amor-Próprio

Amor-próprio lembra uma acerola: para crescer e frutificar, ele tem que ser bem cuidado, estar em terra boa, com luz, sombra e água agradáveis. Só assim, quando estiver grande e firme, pode resistir às intempéries. Amor-próprio não pode ser forçado, afinal você está lidando com você mesmo. É aprender a gostar de si mesmo, admirar a si mesmo, e querer se melhorar para si continuamente. A diferença do amor-próprio para o egoísmo é que este último tende a prejudicar os outros em benefício, enquanto aquele reconhece seu lugar no mundo e tenta torná-lo mais bonito possível.

Confesso que eu não conheço a árvore de acerola de forma técnica, não sei se ela realmente resiste à imprevistos climáticos ou de solo, mas vamos levar de forma metafórica que não dá prejuízo a ninguém.

Muitas pessoas tendem a colher amor-próprio sem ao menos terem plantado: não adianta cuidar de si mesmo se não gosta de você. O resultado é artificial, falso. Há uma grande diferença entre a pessoa que se cuida por obrigação e que se cuida por amor: a que se cuida por obrigação quer manter uma aparência aceitável para os outros, a que se cuida por amor exala beleza sem se preocupar com a opinião alheia. É algo confuso porque segue os padrões de beleza ao mesmo tempo que foge deles: cuidar do corpo, da pele, do cabelo, da saúde, das gordurinhas, das roupas e até mesmo dos sapatos.

Quando se cultiva o amor-próprio, os gastos começam a surgir de forma natural: uma roupa mais confortável, uma alimentação mais balanceada, sapatos confortáveis, atividade física mais eficaz. Não é a busca desenfreada de algo que preencha um vazio interior, mas uma manifestação da beleza que há dentro de cada um de nós. Nessa hora vemos o estrago causado por nós mesmos ao longo dos anos. Chega a ser algo constrangedor. Em alguns casos, só é possível amenizar essas marcas, mostrando a nossa superação.

Valorizar a si mesmo é uma forma de valorizar as pessoas. Quando você se aceita, passa a aceitar as outras pessoas também. Pessoas que julgam tendem a ser muito cruéis consigo mesmas, exigindo-se o máximo ou mesmo cultivando uma autoimagem negativa, de que não consegue superar as próprias expectativas. O caminho não é esse: você não é perfeito, não adianta se exigir mais do que realmente é, muito menos as outras pessoas. Isso não significa que você seja uma má pessoa, pelo contrário: você está valorizando quem realmente é, e todos nós somos pessoas fantásticas procurando desenvolver seu potencial da melhor forma possível.

05 janeiro 2016

O Pequeno Príncipe (2015)

Eu fiquei o ano todo esperando por este filme e acabei não o vendo no cinema. Achei uma versão online com a parte do meio cortada, e pelo que deu a entender, a pessoa gravou o filme dentro do cinema. Dá para entender, demorou para vazar este filme na internet, ao contrário dos sucessos de Hollywood. Enfim, se puder assistir ao filme, aproveite: ele tem uma lição muito importante para dar. É um trabalho ovelha negra, por assim dizer: um filme de grande circuito que fez pouco sucesso, mas rejeitado pelos cinemas cult.

Geralmente filmes que trazem bons ensinamentos são criticados. O Pequeno Príncipe foi considerado um filme insuficiente, aquém da expectativa, assim como Avatar perdeu o Oscar de Melhor Filme por dar um soco no estômago da sociedade ocidental, em especial a norte-americana. Aquém da expectativa porque o final foge do que se pensava para o começo: uma menina controlada pela mãe acaba criando amizade com o vizinho ex-aviador que destoa do resto da sociedade certinha em que vivem. A resenha tem spoilers, por dois motivos: ajuda a entender o que eu escrevo, e o filme não fica menos interessante porque eu contei.

O filme apresenta a obra original e busca continuá-la. A mãe da protagonista muda com ela para um novo bairro para que esta possa estudar em uma escola top, para que ela seja alguém útil, indispensável. Em casas rigorosamente ordenadas, uma se destaca na rua, justamente a de seu vizinho: um ex-aviador com brilho nos olhos e jeito de criança. Ele não havia perdido sua inocência como os outros. E é justamente sobre isso que o filme fala: não perder a inocência, crescer sem deixá-la de lado, coisa tão comum que muitos estranham que ainda haja gente assim. Isso não só no filme, mas na vida real também. Quem lembra da dedicatória de Saint-Exupéry?

O velhinho conta então a história do Pequeno Príncipe, como está no livro. Ele é o aviador da história, que desenhou o carneiro e conheceu sua história. Mal sabia ele que o pequenino não havia conseguido voltar pra casa e estava perdido no mundo dos adultos. Não só ele, como todos os outros, em especial o Contador de Estrelas, que havia estava aprisionando-as para transformá-las em energia que movia o sistema de adultos infelizes. O Pequeno Príncipe não nasceu para ser adulto, ele nasceu para sua Rosa, assim como esta nasceu para ele. A menininha vai atrás do Pequeno Príncipe para salvar seu amigo, que estava hospitalizado, e o encontra trabalhando em um prédio, com olhar vazio, se sentindo inútil. Não se lembrava de mais nada.

É o que acontece com as pessoas. O Sistema (ele existe!) faz com que esqueçamos quem realmente somos e acabamos perdendo nosso brilho interior. Perdemos nossa inocência, nossa alegria, nosso amor. Em nome de quê? De algo vazio que pintam de valioso. Veja as lembranças que o pai da menininha manda para ela de aniversário. Veja o planejamento que a mãe faz para a vida dela, porque quer que a menininha se torne alguém na vida. Sei que muitos pais se esforçam para ver seus filhos vencerem na vida, eu entendo o esforço dela.

Um ponto interessante do filme é quando a menina decide fugir de casa para ir atrás do Pequeno Príncipe com o velhinho. Ela nega de certa forma a realidade apresentada e busca o que considera ideal, mas quando descobre a Verdade a pequena quer largar tudo e esquecer o que viu. Típico, é parte do processo evolutivo. Para evoluirmos é necessária a bagunça mental, reordenar nossos pensamentos e mesmo nossas energias. Como crianças, somos afobados com as novidades, a devoramos em excesso e isso dá uma tremenda dor de barriga depois.

Foi quando ela viu seu amigo hospitalizado que a menininha decidiu agir. Voou para o centro da cidade, do mundo dos adultos, onde encontrou o Pequeno Príncipe perdido, como eu disse antes. Conforme ele foi relembrando de quem realmente era (sim, é comum encontrar pessoas iluminadas que se perdem nesse planeta - é o desafio delas), foi ajudando a menina a sair daquele prédio, a se livrar das garras do Contador de Estrelas. Só que antes de sair de lá, algo era necessário: libertar as estrelas. Sabe o que me lembrou? Dark Sky Island!

Não estou sendo uma aficionada por Enya, mas o cd dela caiu como uma luva na situação em que vivo hoje, e mesmo para analisar esse filme. A Ilha do Céu Escuro, Sark, é uma ilhota onde é possível ver com maior nitidez o céu estrelado. E onde podemos ver as estrelas com tanta claridade e nitidez? Longe da cidade, dos carros e luzes artificiais noturnas. Há vida fora do sistema. O filme viaja em mostrar isso de forma tão nítida. Pessoas não atentas acham que a direção do filme exagerou nesta parte, tão... nada a ver. Se eu achava tudo isso triste (sim, fui entristecendo ao longo do filme), o final ainda é mais triste.

Sinceramente achei que eles forçaram um pouco a barra no final porque não sabiam o que fazer, que nem no Presságio. Ou eu não entendi a saída: simplesmente o planetinha está tomado por baobás secos, e a Rosa está morta também. Tarde demais? Não, lição aprendida: se ele não tivesse conhecido o mundo dos adultos (e mesmo ser aprisionado), a Rosa não teria oportunidade de aprender também (que Rosa chata, meu Deus!). E ela está mais viva do que nunca, aguardando seu amado. Aliás, onde foi parar o carneiro? Morreu também?

Um detalhe interessante para fechar o post: como ver além? Afinal, para a menina fazer o que fez no filme, ou mesmo para o aviador conhecer o Pequeno Príncipe, eles precisavam ver. Ver com o coração: o essencial é invisível aos olhos. Enquanto as pessoas estavam preocupadas com seu cotidiano, sobretudo trabalho, a menininha procurava aproveitar sua infância, descobrindo um mundo de sonhos, construindo seu jardim interior, que levaria para a vida toda.